Snarky Puppy: pegamos a tradição do jazz e fazemos disso uma coisa nossa

(stella k./divulgação)

(stella k./divulgação)

“I feel very fortunate that we had this incubation period where no one knew about us and no one cared. We were able to kind of grow like a fungus, in whatever direction that we grew in. Then, by the time anyone found out about us, we know who we are. This is who we are. We know because we have years behind us, being ourselves. We tried all these things and they didn’t work, musically. These things work, musically, and we love these things. So I’m glad now, in retrospect, that no one cared about us.”

A declaração é do baixista Michael League, produtor, compositor e um dos elementos centrais do Snarky Puppy, um grupo formado no Texas (hoje baseado no Brooklyn, em Nova York) que começa enfim a se espalhar e a ser reconhecido como grande representante da música instrumental contemporânea. O limbo do qual ele fala à revista DownBeat tem a ver com anos de gigs vazias, shows não-remunerados e discos gravados sem apoio de grandes selos ou gravadoras, um cenário que vinha se arrastando desde a criação da banda, há mais ou menos doze anos, e que se transformou recentemente.

Dá pra dizer com tranquilidade que eles são um caso bem sucedido na empreitada que significa ser independente no meio musical. O selo/produtora que apóia o Snarky Puppy, GroundUP, surgiu como uma forma de suporte a eles próprios, uma criação de League. Hoje já são dez álbuns lançados – o último, Family Dinner – Volume Two, saiu em fevereiro deste ano.

Existem alguns aspectos – além da independência – que o tornam um projeto que merece ser escutado por mais pessoas.

O Snarky Puppy não tem exatamente o que se poderia chamar de formação fixa: apesar de ter uma base de músicos mais ou menos estabelecida na medida do possível, a banda é rotativa, com um entra e sai de gente que não descaracteriza o som e a proposta que chegam aos palcos. À revista DownBeat (vou colocar a reportagem sobre eles no fim do post), Michael League chuta que só no ano passado umas 25 pessoas tocaram em shows do grupo. Em resumo, trata-se de uma grande rede de compositores, arranjadores e instrumentistas que se dividem entre projetos autorais e turnês com Justin Timberlake, Erykah Badu e afins.

Jazz+Funk+World+Soul+Pop é uma definição que pode ser encontrada no site oficial do Snarky Puppy, e que, naturalmente, faz todo sentido dentro da proposta sonora deles. E aqui cabe um detalhe particularmente interessante que surge no discurso do Michael League. Segundo ele, a ideia do projeto é trazer arranjos e composições que sejam acessíveis, catchy, e que soem tão bem a eles como ao público. “Quando entramos na van, não colocamos pra tocar um álbum de jazz moderno. Nós escutamos Led Zeppelin, Crosby, Stills, Nash & Young, Smashing Pumpkins e Michael Jackson”, diz. Isso não significa, no entanto, que eles se guiam pelo público, longe disso. “Eu tenho muito forte a ideia de que o artista deve conduzir o ouvinte, e não segui-lo. Mas quando falo sobre a música ser acessível, isso quer dizer acessível para ambos os lados”.

A verdade é que o Snarky Puppy pode soar como pop, mas talvez isso não seja tão simples. Algumas músicas são diferentes, aparentam uma desconexão completa com a outra recém tocada e, de forma meio repentina, arranjos que remetem ao fusion, ao soul e ao blues podem acabar se transformando num instante em referências ao afrobeat, à música oriental, não há fronteiras bem claras, e não seria surpresa isso causar incômodo em quem prefere o bebop, o cool, o free, o fusion ou o próprio jazz moderno em seus estados mais “controlados”.

Os álbuns mais recentes da banda têm algumas características semelhantes: foram todos gravados com diferentes participações, trazem eventualmente composições que são cantadas, e foram registradas em estúdio, ao vivo, com uma pequena plateia acompanhando as sessões. Além do trabalho recém lançado, Family Dinner – Volume 1 (2013) e We Like it Here (2014) são bons pontos de partida para entender um pouco da proposta do Snarky Puppy. Segundo foi contado à DownBeat, o próximo já está bem adiantado. Diferente do costume, eles estão fazendo esse em estúdio, sem vocalistas, público ou orquestra.

Hoje, o grupo tem uma agenda cheia nos Estados Unidos, mas também em vários outros países (no ano passado, eles estiveram no Brasil). Em fevereiro, quase ao mesmo tempo em que lançavam Family Dinner – Volume 2, a banda levou o Grammy na categoria de Melhor Álbum Instrumental Contemporâneo, com Sylva (2015), gravado com a Metropole Orkest.

Como chegou a acontecer na década passada, o Snarky Puppy não corre o risco de ter mais pessoas no palco do que na plateia.


(Para ler a reportagem de capa da edição de fevereiro de 2016 da DownBeat sobre o Snarky Puppy, é só clicar em DB1602)

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