Onde foi parar o Funk Machine de James Jamerson?

Pipocou semanas atrás na internet um infográfico digno de nota. Eu soube depois de ter recebido (do meu chefe lá no reino dos crachás, num domínio .com.br da vida) o link do No Treble, um espaço dedicado ao mundo dos baixistas – ou, como o site se define, “nothing but bass”.

Adiante.

‘Ain’t No Mountain High Enough’ foi escrita por um casal que compôs uma enxurrada de clássicos do R&B; só pra dar um exemplo, ‘Let’s Go Get Stoned’, que Ray Charles transformou em ouro, Joe Cocker, em diamante, é uma das obras de Ashford & Simpson. Em 1967, Marvin Gaye e Tammi Terrel lançaram a música, que até hoje é capaz de embalar qualquer pista, mesmo as mais modorrentas. Tem o selo Motown de qualidade e produção.

O infográfico. Trata-se de um vídeo em que as notas do baixo de ‘Ain’t No Mountain High Enough’ são dispostas de acordo com seu andamento, intensidade e altura (o que é mais alto, mais agudo; o mais grave, mais baixo). O baixista era James Jamerson.

Exceto pelo fato de o vídeo mostrar que James era mesmo um monstro cheio de destreza e criatividade, não é preciso explicar muito mais. Mas o infográfico acabou me fazendo ir atrás de alguma coisa sobre ele, porque a real é que eu não tinha muita ideia de que era o baixo de James Jamerson que aparecia em uma cacetada de number ones. Aliás, “James Jamerson”, jogado na minha frente de supetão, talvez soasse como só mais um nome composto e genérico de algum músico de jazz. Em resumo, eu não sabia porra nenhuma sobre o grande baixista da Motown. Coisas da vida.

jamesjamerson
James Jamerson fez parte da Motown desde o início da gravadora. Embora tenha nascido na Carolina do Norte, nos arredores de Charleston, o músico foi morar com a mãe em Detroit, em 1954, um ano depois de ela ter ido pra lá tentar um emprego. Neto de uma pianista, ele seguiu um caminho não muito incomum para garotos negros nos Estados Unidos entre as décadas de 1940 e 1960: escutava rádios de blues e tinha bastante contato com o gospel da época, soul puro. James começou a estudar música durante o Ensino Médio e, uma vez na banda de jazz do colégio, passou a participar de gigs na cidade (algumas delas com caras já grandes, como Kenny Burrell e Yusef Lateef) e até ganhou da polícia uma autorização que permitia a ele — menor de idade — se apresentar em bares onde eram servidas bebidas alcóolicas. Depois de formado, conhecido na praça, James Jamerson foi parar num estúdio com outros músicos de Detroit, onde, em 1959, a Motown ganhou corpo e passou a ser conhecida como a sabemos hoje.

Em entrevista à Guitar Player, em 1979, ele conta:

How did you first connect with Motown?
Well, I was playing upright bass in the late 50’s, doing some sessions with other people at Berry Gordy’s first wife’s studio. Berry heard the lines I was playing and fell in love with them. He asked me if I’d be interested in coming over and being part of the company, and I told him yes.

De início no double bass (ou upright bass), o baixo acústico de pau, ele migrou para o elétrico, em 1961; houve um tempo em que James fazia as gravações duas vezes, com os dois instrumentos, para dar mais peso; dizem também que a precisão dele, de tão grande, nem deixava aparecer que existiam dois baixos fazendo as mesmas linhas. Além disso, ao contrário da maior parte dos baixistas, que usam pelo menos dois dedos da mão direita, ele usava apenas o indicador, de cima a baixo. Aqui, dá para ver um trecho disso acontecendo; o indicador de James Jamerson passou a ser chamado de ‘The Hook’, ou algo como ‘O Gancho’.

Todo o folclore, porém, demorou a pintar na tela. Isso porque a Motown, até 1971, não creditava os seus músicos de apoio, de estúdio — e a verdade é que boa parte da mágica acontecia por causa deles. A mágica acabou ganhando um nome: The Funk Brothers, o grupo que ficava nas sombras em Detroit (até 1972, quando o dono da coisa toda, Berry Gordy, migrou a estrutura para Los Angeles), e que — segundo garantem pesquisadores — é responsável por mais hits do que Beatles, Beach Boys, Elvis Presley e Rolling Stones juntos. Um dos momentos em que essa “retratação histórica” se transformou em algo um pouco mais concreto foi em 1989, quando um sujeito conhecido como Allan ‘Dr. Licks’ Slutsky lançou uma obra cuja pesquisa se baseava na vida de James Jamerson. Standing in the Shadows of Motown: The Life and Music of Legendary Bassist James Jamerson é um livro/cd com entrevistas sobre o instrumentista, além de performances e imagens inéditas; seguindo essa trilha já aberta, em 2002, o assunto voltou com o documentário Standing in the Shadows of Motown, cujo tema central não era apenas James, e sim todos os músicos que participaram da época de ouro da gravadora; em outras palavras, os Funk Brothers.

Diz a resenha oficial do filme:

“In 1959, Berry Gordy gathered the best musicians from Detroit’s thriving jazz and blues scene to begin cutting songs for his new record company. Over a fourteen year period they were the heartbeat on “My Girl,” “Bernadette,” I Was Made to Love Her,” and every other hit from Motown’s Detroit era.

“By the end of their phenomenal run, this unheralded group of musicians had played on more number ones hits than the Beach Boys, the Rolling Stones, Elvis and the Beatles combined – which makes them the greatest hit machine in the history of popular music. They called themselves the Funk Brothers.

* * *

Em 1961, como já foi dito, James Jamerson começou a migrar do double bass para o baixo elétrico; versões apontam que Horace ‘Chili’ Ruth, outro baixista, lhe deu um Fender Precision de presente, mas há também quem diga que o instrumento foi comprado do colega; em todo caso, James começou com esse modelo, que foi roubado não muito depois, assim como o baixo seguinte. Ou seja: até aqui, temos na mão de larápios: i) Fender Precision 1957, supostamente intermediado sabe lá como por Horace; ii) outro baixo semelhante, também surrupiado.

Foi aí que surgiu, enfim, a lenda — o Funk Machine de James Jamerson, um Fender Precision Bass de mil novecentos e sessenta e algo.

A data mais difundida é o ano de 1962, mas há divergências. Naquela conversa com a Guitar Player, o próprio James diz outra coisa.

How many basses do you own? 
Four. I have an old German upright, a Fender 5-string, a Hagstrom 8-string, and the Precision. I’ve had two Precisions stolen from me, but my present one I bought new in ’63. When I got it I immediately took the Fender strings off and put LaBellas on, and I’ve had the same strings on it ever since. You don’t need to change strings all the time; you’ll lose the tone. It’s like a new car: the older it gets, the better it rides.

Sendo de 1962 ou 1963, o lance é que daí em diante James Jamerson e seu baixo alastraram as gravações da época; ele cravou — literalmente — a palavra ‘FUNK’ na parte de trás do instrumento e se tornou um dos músicos mais requisitados da Motown, se não o mais. Na época, parte dos Funk Brothers saía em turnê com outras bandas e fazia uns ‘freelas’ para outros estúdios, mas não raro as sessões “oficiais” eram remarcadas para que James pudesse estar presente. Em 1968, no auge, ele ganhava cerca de US$ 1 mil por semana só da gravadora — um salário bom mesmo para os padrões atuais, sem contar os rendimentos que conseguia de shows e gravações extra-campo.

Quando Berry Gordy transferiu a sede da gravadora para Los Angeles, em 1972, James era — além de um fenômeno — um cara de problemas; tragos e drinques, agendas e compromissos furados, vida loca parte 3; oficialmente, e não especificamente pelo estado de espírito em que passava aquele tempo, ele deixou de fazer parte do staff em 1973, mas continuou participando de gravações e shows. A mudança Detroit-LA, na opinião de James Jamerson, não passou em branco para a Motown. Segue outro trecho da entrevista de 1979:

Do you think Motown’s records started sounding different when the label moved from Detroit to Los Angeles? 
Yeah, altogether different. They lost the sound, man. They moved to L.A. looking for something different, and they didn’t find it. And all along everybody else was searching for the same sound they had.

Apesar de saber que sequer dois por cento da vida de James foi revisitada aqui, retomo enfim meu título: onde foi parar o Funk Machine de James Jamerson?

Alguns parágrafos antes, até 1963, tínhamos dois instrumentos nas mãos de gatunos, mas não o insubstituível e inefável Funk Machine. Em ritmo acelerado, a história: no fim de julho de 1983, James vivia seus últimos dias de vida, consumida pela conta que chegava depois de décadas de abusos. Um dia, a casa em que ele morava foi invadida, e seu baixo mais precioso, furtado. No dia 2 de agosto, James Jamerson morreu, aos 47 anos, por um combo que foi oficializado como cirrose, pneumonia e complicações cardíacas. Começou, assim, a empreitada para que aquele Fender Precision Bass fosse recuperado e canonizado.

Acontece que hoje, mais de três décadas depois, não há qualquer sinal do instrumento; até o dia 10 de julho, um projeto tentava arrecadar fundos no Kickstarter para empreender uma busca pelo Funk Machine, que seria transformada em um documentário sobre o tal baixo. Acabou não dando certo, mas aqui você encontra mais detalhes. Também existem fóruns que tentam decifrar o enigma, além de baixoativistas que se dedicam e se colocam à disposição para devolver de uma vez por todas o Funk Machine ao panteão da Soul Music.

Quem sabe.

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