eu também vou reclamar

caetano_aracaazul

No penúltimo ano da faculdade de jornalismo, quase último, precisei escolher – como todo mundo – em qual formato eu faria meu trabalho de conclusão de curso; livro, documentário, site ou algum projeto que valesse a defesa final e, enfim, o diploma. Sempre flertei com a ideia de escrever um livro, e acho que se você tem acompanhado a polêmica sobre as biografias (que se arrasta faz muito tempo, mas que só agora inundou os jornais como um tsunami), há boas chances de você também ser desses.

Nunca fui fã de Walter Franco; eu mal conhecia seus álbuns, pra ser sincero; mas era um personagem vivo, cuja obra ainda não havia sido muito vasculhada. E aí, por essas e outras, fiz a escolha e segui meu caminho: decidi que mergulharia na onda que ele surfou na década de 1970, entrei em contato por telefone (nosso primeiro papo foi sucinto, e tive de cara a impressão que meu convite despertou nele um misto de espanto, carinho e desconfiança) e continuei as minhas pesquisas com a promessa – feita por ele – de que em breve conversaríamos para ir adiante com meu livro-reportagem.

Escutei seus álbuns dias e noites, desenterrei personagens que o acompanharam e me debrucei em artigos e teses que versavam sobre o experimentalismo musical daqueles tempos. Sem ter muita margem para atrasos (eu tinha prazos acadêmicos, trabalhava no estadão online e não podia me dedicar só a essa tarefa), entrei novamente em contato com uma ideia sólida do que eu pretendia com o livro: um recorte da carreira de Walter Franco, baseado principalmente em três discos lançados por ele, em 1973, 1975 e 1978, recontando o processo criativo do “Walter artista”, mas que de quebra, em um movimento natural de entrevista, revelasse dados biográficos e histórias aparentemente ainda intocadas do “Walter humano”. Ele recuou, “você não tem sensibilidade”, disse, e me pediu que não invadisse mais a privacidade dele. Não posso dizer se ele tinha razão, mas talvez tivesse; privacidade e sensibilidade são conceitos pessoais, que não merecem qualquer julgamento.

Bem, essa é a minha versão da história, dos encontros e desencontros. E tenho certeza que a de Walter Franco não seria a mesma caso ele resolvesse contar isso a alguém (como inclusive acabou fazendo, eu soube depois, quando explicou o incidente a um camarada meu que foi estagiário da Abramus, onde Walter é vice-presidente).

O fato é que, pela falta de tempo, W.F. tinha se tornado um caminho sem volta.; escrevi o livro com a mesma ideia que propus a ele, e ouvi de seus amigos e ex-companheiros de banda os lamentos de que “Walter é difícil” a cada resposta negativa quando o assunto entrava em “e o Walter?”. Para terminar o livro, pensei algumas vezes em Walter Franco como um artista morto, que, sendo assim, não poderia me ajudar com informações que só ele guarda, mas que também não poderia exercer qualquer influência sobre o que eu quisesse dizer – coisa que ele, pelo que me disse o Pedro Alexandre Sanches uma vez, ele gostava de fazer, pedir para ler o texto, trocar aspas que já estavam paginadas e similares, ele gostava de fazer isso. O livro ficou pronto, chama “Falar demais é bobagem – a década de Walter Franco”, e não o considero um primor. Não foi publicado ainda por uma série de razões, e talvez porque não esteja à altura de valer o investimento de alguém, pelo menos por ora.

Escrevo tudo isso porque os debates em torno do Procure Saber me atraem. Eu não sei, e não sei mesmo, qual será a reação do Walter caso alguém se arrisque a publicar meu livro um dia, muito menos conheço a posição dele sobre o assunto; considerando o histórico, acho provável que ele esteja caminhando com Roberto Carlos e companhia, e não com Jards Macalé, com quem divide a pecha de “maldito” há quatro décadas.

Não acho, honestamente, que a discussão em torno dessa autorização prévia seja algo tão complexo como Paula Lavigne, Caetano, Chico et cetera têm feito parecer; não, meus caros, a história não está sob o controle de vocês, não mais. Dentre vários textos que pipocaram pela internet, considero o do Márvio dos Anjos um dos mais interessantes por diversos motivos, dentre eles a analogia sobre os “donos da bola” e a citação ao livro do Paulo César de Araújo.

Li “Eu Não Sou Cachorro Não” faz uns dois ou três anos, um divisor de águas para as minhas avaliações sobre história da música e suas representações. Reproduzo abaixo um trecho do texto do Márvio:

Li “Eu Não Sou Cachorro Não”. É uma obra-prima sobre como o regime militar perseguiu a música popular brega e traz uma enorme meditação sobre certos preconceitos da crítica musical brasileira, que privilegiava os músicos da MPB “universitária”, como Chico, Caetano e Gil, e se esquecia de ver que os cantores do Brasil profundo, como Wando, Amado Batista e Odair José eram tão perseguidos quanto  – recomendo esse livro a qualquer um. Como qualquer trabalho humano, pode ter erros. Como qualquer trabalho jornalístico – e as biografias são jornalismo -, pode ter gralhas a serem corrigidas e desculpadas em edições seguintes. 

Isso me leva a outra questão. Mais uma vez, sem perceber, corremos o risco de cometer um erro que já havia sido parcialmente reparado pelo livro do PC Araújo, que botou em xeque a canonização dos ícones da MPB como os únicos arautos da boa música, politizada, esteticamente bela, engajada, protagonista da história e ferramenta da liberdade democrática da qual o país hoje pode, em tese, desfrutar. Em outras palavras, pensar só nesse grupo de artistas, excluindo outras milhões de biografias possíveis que correm o risco de nunca existir, é atestar que Caetano e Chico, ao proibirem biógrafos de pesquisarem suas vidas com independência, estarão cerceando o país e “seus filhos” de conhecerem a história do Brasil.

“Eu Não Sou Cachorro Não” escancarou bem o outro lado, assim como alguns filmes que surgiram nos últimos anos, mas parece que a gente sempre acaba voltando às mesmas figuras carimbadas dos saudosos festivais. Não discordo que eles representam mesmo uma grande fatia (talvez até a maior) da produção e da construção identitária do país; quando Caetano diz ser “a favor de podermos ter biografias não autorizadas de Sarney ou Roberto Marinho”, porém, ele se coloca – assim como nós costumamos colocá-lo – em pedestais onde ninguém pode ou merece chegar. “Faça isso com os outros, mas não comigo”.

Não adiantam mais os eufemismos, “autorização prévia” não é muito diferente do DIP de Vargas. O lado bom é que todo mundo percebeu e desistiu de ficar odara.

>>> Cordial, Caetano Veloso
>>> Carta para Caetano, Benjamin Moser
>>> Caixa-preta de um biógrafo falido, Mário Magalhães
>>> Na pelada, uma biografia de Chico, Márvio dos Anjos
>>> Um editor de biografias, Luiz Schwarcz
>>> Meu caro Chico, Mário Magalhães
>>> Penso eu, Chico Buarque
>>> De seu amável interrogador, Paulo Cesar de Araújo
>>> pra citar alguns…

One thought on “eu também vou reclamar

  1. Pingback: Djavando um Djavan | medo de avião

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s