burchfield-vituri-quartet

Tá surgindo em Boston um projeto interessantíssimo de jazz moderno. Não que eu não seja suspeito pra falar, mas realmente bateu forte quando ouvi. É o Burchfield Vituri Quartet, quarteto cujos dois arranjadores são Tyler Burchfield e Pedro Vituri — sim, meu irmão, no caso.

Eles colocaram hoje (terça-feira, 19/8) o soundcloud do grupo no ar, por ora com duas faixas: ‘Stump Knocker’, escrita pelo Tyler em referência a uma cerveja da Flórida, de onde ele vem, e ‘Luz e Sombra’, do Pedro (ou Mojica), que segue uma onda bem abrasileirada, claro. (no fim do post, você encontra o player para escutá-las)

O Tyler é multi-instrumentista, toca todos os saxes, clarinete, clarinete-baixo, flauta e por aí vai; ele estudou na Universidade de Miami e se mudou pra Boston por causa de um mestrado no New England Conservatory. Acabou ficando por lá e acolheu meu irmão no ano passado, em agosto. O Pedro faz música desde criança, e aí, quando precisou escolher o que fazer da vida, continuou com a música. Veio pra São Paulo, fez dois anos na Faculdade Souza Lima e vai terminar a graduação na Berklee College of Music.

Diz o profile dos meninos:

The Burchfield-Vituri Quartet is a project by Boston based musicians Tyler Burchfield and Pedro Vituri. With original compositions and arrangements of both Brazilian and American standards, they strive to have an original sound with a wide range of influences, from traditional and modern Brazilian music, to modern classical, passing through jazz, R&B and rock. The group has a mixture of straight-ahead material and free improvisation, going for a modern sound while paying homage to various traditions.

Os dois tinham vontade de gravar alguns temas juntos, e aí se agruparam com o Jacob Cole (que gravou a bateria) e o Simón Willson (o baixo). “Apesar de já conhecermos os dois antes, vimos que eles seriam boas escolhas pro tipo de música que estávamos elaborando, por eles dois terem groove, swing, mas também abertura pra tocar free“, disse o meu irmão aqui pelo gtalk.

As gravações foram feitas todas ao vivo, no estúdio, com Bill Whitney, que trabalhava pra Harmonix (aka a empresa que faz o Rock Band, o game). A sessão foi on the spot; em outras palavras, sem ensaio, com arranjos decididos meio na hora e diferentes em cada take.

No fim do ano, Tyler e Pedro vêm pra cá e devem organizar umas gigs com dois caras da pesada — o Rodrigo, de Maringá, e o Peter, de Chicago, que já tocou no Brasil. Quando tiver algo mais fechado e agendado, aviso.

Pra falar com eles, é só escrever: burchfield.vituriquartet@gmail.com. Mais abaixo, as músicas.

- – -

update: eu acabei demorando pra colocar aqui, mas o B Side do que eles gravaram também já está disponível; as quatro faixas estão no player.

 

* * *

Pipocou semanas atrás na internet um infográfico digno de nota. Eu soube depois de ter recebido (do meu chefe lá no reino dos crachás, num domínio .com.br da vida) o link do No Treble, um espaço dedicado ao mundo dos baixistas – ou, como o site se define, “nothing but bass”.

Adiante.

‘Ain’t No Mountain High Enough’ foi escrita por um casal que compôs uma enxurrada de clássicos do R&B; só pra dar um exemplo, ‘Let’s Go Get Stoned’, que Ray Charles transformou em ouro, Joe Cocker, em diamante, é uma das obras de Ashford & Simpson. Em 1967, Marvin Gaye e Tammi Terrel lançaram a música, que até hoje é capaz de embalar qualquer pista, mesmo as mais modorrentas. Tem o selo Motown de qualidade e produção.

O infográfico. Trata-se de um vídeo em que as notas do baixo de ‘Ain’t No Mountain High Enough’ são dispostas de acordo com seu andamento, intensidade e altura (o que é mais alto, mais agudo; o mais grave, mais baixo). O baixista era James Jamerson.

Exceto pelo fato de o vídeo mostrar que James era mesmo um monstro cheio de destreza e criatividade, não é preciso explicar muito mais. Mas o infográfico acabou me fazendo ir atrás de alguma coisa sobre ele, porque a real é que eu não tinha muita ideia de que era o baixo de James Jamerson que aparecia em uma cacetada de number ones. Aliás, “James Jamerson”, jogado na minha frente de supetão, talvez soasse como só mais um nome composto e genérico de algum músico de jazz. Em resumo, eu não sabia porra nenhuma sobre o grande baixista da Motown. Coisas da vida.

jamesjamerson
James Jamerson fez parte da Motown desde o início da gravadora. Embora tenha nascido na Carolina do Norte, nos arredores de Charleston, o músico foi morar com a mãe em Detroit, em 1954, um ano depois de ela ter ido pra lá tentar um emprego. Neto de uma pianista, ele seguiu um caminho não muito incomum para garotos negros nos Estados Unidos entre as décadas de 1940 e 1960: escutava rádios de blues e tinha bastante contato com o gospel da época, soul puro. James começou a estudar música durante o Ensino Médio e, uma vez na banda de jazz do colégio, passou a participar de gigs na cidade (algumas delas com caras já grandes, como Kenny Burrell e Yusef Lateef) e até ganhou da polícia uma autorização que permitia a ele — menor de idade — se apresentar em bares onde eram servidas bebidas alcóolicas. Depois de formado, conhecido na praça, James Jamerson foi parar num estúdio com outros músicos de Detroit, onde, em 1959, a Motown ganhou corpo e passou a ser conhecida como a sabemos hoje.

Em entrevista à Guitar Player, em 1979, ele conta:

How did you first connect with Motown?
Well, I was playing upright bass in the late 50’s, doing some sessions with other people at Berry Gordy’s first wife’s studio. Berry heard the lines I was playing and fell in love with them. He asked me if I’d be interested in coming over and being part of the company, and I told him yes.

De início no double bass (ou upright bass), o baixo acústico de pau, ele migrou para o elétrico, em 1961; houve um tempo em que James fazia as gravações duas vezes, com os dois instrumentos, para dar mais peso; dizem também que a precisão dele, de tão grande, nem deixava aparecer que existiam dois baixos fazendo as mesmas linhas. Além disso, ao contrário da maior parte dos baixistas, que usam pelo menos dois dedos da mão direita, ele usava apenas o indicador, de cima a baixo. Aqui, dá para ver um trecho disso acontecendo; o indicador de James Jamerson passou a ser chamado de ‘The Hook’, ou algo como ‘O Gancho’.

Todo o folclore, porém, demorou a pintar na tela. Isso porque a Motown, até 1971, não creditava os seus músicos de apoio, de estúdio — e a verdade é que boa parte da mágica acontecia por causa deles. A mágica acabou ganhando um nome: The Funk Brothers, o grupo que ficava nas sombras em Detroit (até 1972, quando o dono da coisa toda, Berry Gordy, migrou a estrutura para Los Angeles), e que — segundo garantem pesquisadores — é responsável por mais hits do que Beatles, Beach Boys, Elvis Presley e Rolling Stones juntos. Um dos momentos em que essa “retratação histórica” se transformou em algo um pouco mais concreto foi em 1989, quando um sujeito conhecido como Allan ‘Dr. Licks’ Slutsky lançou uma obra cuja pesquisa se baseava na vida de James Jamerson. Standing in the Shadows of Motown: The Life and Music of Legendary Bassist James Jamerson é um livro/cd com entrevistas sobre o instrumentista, além de performances e imagens inéditas; seguindo essa trilha já aberta, em 2002, o assunto voltou com o documentário Standing in the Shadows of Motown, cujo tema central não era apenas James, e sim todos os músicos que participaram da época de ouro da gravadora; em outras palavras, os Funk Brothers.

Diz a resenha oficial do filme:

“In 1959, Berry Gordy gathered the best musicians from Detroit’s thriving jazz and blues scene to begin cutting songs for his new record company. Over a fourteen year period they were the heartbeat on “My Girl,” “Bernadette,” I Was Made to Love Her,” and every other hit from Motown’s Detroit era.

“By the end of their phenomenal run, this unheralded group of musicians had played on more number ones hits than the Beach Boys, the Rolling Stones, Elvis and the Beatles combined – which makes them the greatest hit machine in the history of popular music. They called themselves the Funk Brothers.

* * *

Em 1961, como já foi dito, James Jamerson começou a migrar do double bass para o baixo elétrico; versões apontam que Horace ‘Chili’ Ruth, outro baixista, lhe deu um Fender Precision de presente, mas há também quem diga que o instrumento foi comprado do colega; em todo caso, James começou com esse modelo, que foi roubado não muito depois, assim como o baixo seguinte. Ou seja: até aqui, temos na mão de larápios: i) Fender Precision 1957, supostamente intermediado sabe lá como por Horace; ii) outro baixo semelhante, também surrupiado.

Foi aí que surgiu, enfim, a lenda — o Funk Machine de James Jamerson, um Fender Precision Bass de mil novecentos e sessenta e algo.

A data mais difundida é o ano de 1962, mas há divergências. Naquela conversa com a Guitar Player, o próprio James diz outra coisa.

How many basses do you own? 
Four. I have an old German upright, a Fender 5-string, a Hagstrom 8-string, and the Precision. I’ve had two Precisions stolen from me, but my present one I bought new in ’63. When I got it I immediately took the Fender strings off and put LaBellas on, and I’ve had the same strings on it ever since. You don’t need to change strings all the time; you’ll lose the tone. It’s like a new car: the older it gets, the better it rides.

Sendo de 1962 ou 1963, o lance é que daí em diante James Jamerson e seu baixo alastraram as gravações da época; ele cravou — literalmente — a palavra ‘FUNK’ na parte de trás do instrumento e se tornou um dos músicos mais requisitados da Motown, se não o mais. Na época, parte dos Funk Brothers saía em turnê com outras bandas e fazia uns ‘freelas’ para outros estúdios, mas não raro as sessões “oficiais” eram remarcadas para que James pudesse estar presente. Em 1968, no auge, ele ganhava cerca de US$ 1 mil por semana só da gravadora — um salário bom mesmo para os padrões atuais, sem contar os rendimentos que conseguia de shows e gravações extra-campo.

Quando Berry Gordy transferiu a sede da gravadora para Los Angeles, em 1972, James era — além de um fenômeno — um cara de problemas; tragos e drinques, agendas e compromissos furados, vida loca parte 3; oficialmente, e não especificamente pelo estado de espírito em que passava aquele tempo, ele deixou de fazer parte do staff em 1973, mas continuou participando de gravações e shows. A mudança Detroit-LA, na opinião de James Jamerson, não passou em branco para a Motown. Segue outro trecho da entrevista de 1979:

Do you think Motown’s records started sounding different when the label moved from Detroit to Los Angeles? 
Yeah, altogether different. They lost the sound, man. They moved to L.A. looking for something different, and they didn’t find it. And all along everybody else was searching for the same sound they had.

Apesar de saber que sequer dois por cento da vida de James foi revisitada aqui, retomo enfim meu título: onde foi parar o Funk Machine de James Jamerson?

Alguns parágrafos antes, até 1963, tínhamos dois instrumentos nas mãos de gatunos, mas não o insubstituível e inefável Funk Machine. Em ritmo acelerado, a história: no fim de julho de 1983, James vivia seus últimos dias de vida, consumida pela conta que chegava depois de décadas de abusos. Um dia, a casa em que ele morava foi invadida, e seu baixo mais precioso, furtado. No dia 2 de agosto, James Jamerson morreu, aos 47 anos, por um combo que foi oficializado como cirrose, pneumonia e complicações cardíacas. Começou, assim, a empreitada para que aquele Fender Precision Bass fosse recuperado e canonizado.

Acontece que hoje, mais de três décadas depois, não há qualquer sinal do instrumento; até o dia 10 de julho, um projeto tentava arrecadar fundos no Kickstarter para empreender uma busca pelo Funk Machine, que seria transformada em um documentário sobre o tal baixo. Acabou não dando certo, mas aqui você encontra mais detalhes. Também existem fóruns que tentam decifrar o enigma, além de baixoativistas que se dedicam e se colocam à disposição para devolver de uma vez por todas o Funk Machine ao panteão da Soul Music.

Quem sabe.

A Esquire, que existe há mais de oitenta anos, tem uma seção chamada ‘What I’ve Learned’, ou O Que Aprendi, em português. A ideia é uma conversa com o entrevistado, sobre a vida, histórias, e que depois é colocada em primeira pessoa, sem o formato clássico pergunta-resposta.

Quase todo mundo passou por lá. O lado bom é que não é difícil encontrar no site deles vários desses depoimentos. Selecionei alguns da turma da música e escolhi um trecho de cada. Para a íntegra, é só clicar no nome. Para todos – da música e do resto – é só clicar aqui.

ps.: este link também é interessante, porque separa frases épicas por assunto, e não por personagem.

* * *

Sonny Rollins - Look at Coltrane. Coltrane, at the end, all he was talking about was spiritual things. That’s the kind of music he was trying to play. That’s where he was at. The goal is not to be one person off the stage and another person on the stage. The goal is to be a complete circle.

B.B. King - I’m a country boy. I love nature. I don’t need all the fancy things, the fancy automobiles, the fancy this and that. I have a nice car, a Mercedes. And then I have an old El Camino truck that I’m crazy about. I like to get in that truck and go up in the hills near where I live, in Vegas, and take my camera. That to me is heaven, being out in nature, taking pictures of the wildlife.

Thom Yorke – Respect is if you’re having a political argument with someone, just before you get to the point where you call them a fascist, you sort of step back and wonder how on earth they’ve ended up at this point of complete ignorance and stupidity.

Ray Charles – I’m a firm believer in God himself, but that’s as far as I can go. I’m not any denomination. I’m not Catholic or Presbyterian or Baptist or Methodist or Jewish or Muslim. I’m none of those things. And I’m sure that’s just fine with God.

Ornette Coleman – Difference between sex and love? Well, you’re not always sure you’re in love. But when you’re having sex, there’s really no mistaking it.

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Keith Richards – Electric is another instrument. Yeah, it looks the same and you’ve got to make the same moves, but you have to learn how to tame the beast. Because it is a monster.

                             – There’s this perennial thing that people have — how do you do it? Why do you do it? Like it’s — what do you do? How do you go to an office every day? Compared to that, my job is easy.

                             – I occasionally borrow pot from my kids. They do a little weed occasionally. “Here, Dad” — or more likely, “Dad, have you got any?”

Ozzy Osbourne – When I heard “She Loves You,” my world went up like a shooting star. It was a divine experience. The planets changed. I used to fantasize that Paul McCartney would marry my sister. Sorry, folks, it’s John, Paul, George, and Ringo, not Paul, John, George, and Ringo.

Eminem – Within the last year, I started learning how to not be so angry about things, learning how to count my fucking blessings instead. By doing that, I’ve become a happier person, instead of all this self-loathing I was doing for a while.

Snoop Dogg – My momma gave me the name. I used to love Peanuts and Charlie Brown — Snoopy was my favorite cartoon character growing up. I watched so much, I started to look like him.

                        – Fatherhood is more than a job, it’s more than a responsibility. It’s a lifestyle. You gotta be prepared to live it.

                        - I performed at a bar mitzvah. And I’m telling you, man, these little motherfuckers, they were singing my shit, they was cussin’, they were singing the dirty version. I’m talking about twelve- and thirteen-year-old little white kids singin’ this real gangsta shit. Man. I was shocked. I just gave them the mic and let them motherfuckers go.

esq-snoop

 

* * *

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Isso foi no ano passado. Pedi uma indicação, clara e simples: “Queria escutar uns nomes do jazz que se sagraram com um rhodes ou um hammond”. Dos nomes na mesa, ou talvez tenha sido só um, deu Jimmy Smith. Eu nunca havia ouvido falar dele, mas a música me soava muito um cara de quem eu já gostava bastante (o Baby Face Willette), e aí, por essa mão que os streamings têm nos dado, encontrei rápido um disco do Jimmy – o Root Down, gravado ao vivo em 1972.

Depois da epifania que eu tive escutando a segunda faixa, e que devo contar daqui um, dois ou mais parágrafos, fui atrás de Jimmy Smith.

Esse solo de órgão fodido que existe em ‘Bad’, do Michael Jackson, por exemplo, é dele. Parece que a ideia era ter o Prince aí, mas não deu certo e o Quincy Jones – que produziu o álbum – convidou o Jimmy.

Eu não lembro exatamente quando conheci Só pra Contrariar, mas foi na época do lançamento do álbum homônimo, de 1997 (também conhecido como ‘Depois do Prazer’); segundo dados da ABPD, vendeu mais de 3 milhões de cópias – uma delas, à disposição em uma prateleira das Lojas Americanas, em Maringá, Texas Paraná, foi adquirida por mim.

Em 11 de setembro de 1998, uma sexta-feira, além da estreia de ‘O Resgate do Soldado Ryan’, o Guia da Folha anunciava: “Marantz Jazz: o grupo norte-americano Take 6, o quinteto de New Orleans Astral Project, o organista Jimmy Smith e o cantor Kevin Mahogany são as atrações da segunda edição do festival de jazz”. Era caro, e no Bourbon Street, lógico. Na página 70 do Guia, esse era o destaque do canto superior esquerdo, o primeiro, enquanto o destaque no canto inferior direito, o último, era: “Só Prá (sic) Contrariar: o grupo de pagode, um dos maiores números de vendagem do gênero, é a segunda atração da nova casa de espetáculos da cidade”, e por aí ia. A casa, no caso, era o (detestável) Via Funchal.

Até então, a única coisa que poderia ligar Alexandre Pires a Jimmy Smith seria a coincidência de ambos terem feito apresentações na mesma semana, na mesma cidade. E a não ser que você imagine um deles cortando o bis do próprio repertório para pegar o fim do show do outro, não faz qualquer sentido essa associação.

A NÃO SER QUE:
(invariavelmente, é preciso escutar a música aí embaixo para continuar lendo o post)

Bem, se isso não te lembra ‘Depois do Prazer’ (e depois acabou, ilusão que eu criei, emoção foi embora e a gente só pede pro tempo correr), você provavelmente deve ter a idade da minha cunhada do coração, nascida pós 90s (11 anos), ou carecer de boa imaginação.

O Alexandre Pires nasceu em 1976, quatro anos depois desse histórico registro, deixando como única possibilidade ele ter conhecido a música por intermédio de alguém, tipo o pai dele. No site oficial diz que o João Pires, o Seu João, fazia parte de uma banda em Uberlândia, que ‘sacodia os salões de baile’ (sic). Pode ser, nunca saberemos.

Como bem observou meu meio-irmão, o Camilo, é como se o Bad Plus resolvesse interpretar Só Pra Contrariar. Mas aí é meio que o contrário: o Só pra Contrariar é que teria feito o Bad Plus – ou, no caso, o Alexandre Pires fazendo as vezes de Jimmy Smith.

Se tudo isso não te serviu pra nada, o que é até provável, fique pelo menos com os seguintes links para conhecer mais de Jimmy Smith. Porque de SPC todo mundo sabe um pouco.

Jimmy Smith: 1, 2, 3, 4

brandt_lebowski
Mexendo em uns emails velhos no feriado, não-lidos, de coisa que se guarda pra ler pro dia que nunca chega, encontrei links e mais links de coisa que não li e não vai ser hoje e de coisas que li. No segundo grupo, encontrei a entrevista que a Rolling Stone divulgou quando o Philip Seymour Hoffman morreu; tinha sido feita em 2008, havia vários trechos que eram inéditos até então, e a pauta, aí é que tá, era a participação dele como Brandt, o capacho do Mr. Lebowski. Isso e nada mais.

RS – Some people just watch the movie over and over and there’s even Lebowksi fan conventions. How do you explain its appeal?
I don’t know. I guess the whole film’s attitude, you hate to lay too much meaning onto something that’s enjoyable. But there’s a freedom to the film. The Dude abides, and that’s something people really yearn for, to be able to live their life like that and have other people treat them like that. There’s something about that. There’s a quality to that. You can see why young people all over would want to enjoy that. It’s a celebration of that sort of attitude.

A íntegra tá aqui.

paulinho-stevie-wonder-e-djavan

Quando adolescente, como qualquer adolescente que gostasse de Blind Pigs, NOFX, Lagwagon, ou mesmo depois de adolescente, que gostasse de Pavement e Pixies, eu desprezava – com todas as forças – Djavan e seus rastafaris bem cuidados. Agora, coisa de uma década depois, músicas de Djavan volta e meia me ocupam a cabeça e os ouvidos, no melhor dos sentidos.

Quando me hibernei nos festivais da década de 1970 por causa do Walter Franco, acabei conhecendo coisas que antes, até então, só tinham me passado bem de passagem pela frente, sem eu nunca chegar a correr atrás de um download ou verbete. Aí, sendo W.F. pós oba-oba tropicalista dos festivais da Record que a gente tanto escuta nas aulas de história (como se Chico Buarque e Caetano tivessem sozinhos construído a noção de cultura no Brasil), um pessoal novo (pra mim) e velho (também pra mim, que nasci só muito em 88 depois) comecei a lustrar e pesquisar com verdadeiro interesse; houve quem surgiu nos meus dias pela primeira vez (Ednardo, Carlinhos Vergueiro), houve quem eu conhecesse de raspão e me fez ganhar coragem para sair do raso (Sérgio Sampaio, Jards Macalé, Belchior) e houve quem, depois dos anos a fio de hits meio cafonas que escutei e desgostei nas rádios de mãe e de clube, me fez reconstruir aquela ideia mezzo preconceituosa mezzo ingênua de achismos juvenis; hoje circulam no meu imaginário e na minha estante de discos: Fagner e Djavan. Não que eu os desdenhasse aos 20 como o fazia aos 15, mas a indiferença também é cruel.

Se eu tivesse escrito o texto muito tempo atrás, talvez falasse de como passei a idolatrar Fagner, mas mesmo assim não tenho tanta certeza, porque, afinal, Fagner nunca foi um grande tabu; primeiro porque ele parece meu pai, fisicamente, segundo porque meu pai – e isso não tem nada a ver com ele parecer com o Fagner – sempre escutou muito o tal cearense de Orós, e volta e meia também cantava no karaokê grandes hits como ‘Deslizes’ ou ‘Canteiros’, e até hoje tenho certeza que o seu Zildo se arriscaria nessas duas sem bambear muito.

Resumindo, Fagner, nem em tempos de rebeldia me causou repulsa – hoje, ainda mais longe de lapsos de repulsa, me derruba lágrimas de emoção e borbulhas de amor.

No caso do Djavan, eu detestei Djavan. Coisas primordiais que me faziam detestar Djavan, e talvez ele ainda faça todas essas coisas, é claro, mas hoje elas não me incomodam como antes:

- o hábito de juntar palavras que juntas não parecem fazer sentido (assim como não faz sentido desprezar Paul McCartney por usar a correia mais em cima que o Krist Novoselic usava, coisa que eu costumava fazer quando tinha 11 anos, desprezar)

- meter no meio da música que devoraria alguém tal Caetano e, por que isso?, a Leonardo di Caprio. A título de curiosidade, ‘Eu te devoro’ foi lançada em 1998; Titanic, 1997. Não sei se existe relação com o sucesso do filme, mas eu seria capaz de apostar que sim

- a ideia de que deus criou os dinossauros não chega a incomodar, mas é muito estranha, principalmente porque ele fez isso “pensando em você”, e não vou discutir deus, muito menos teorizar se ele calculou a fisionomia e o funcionamento dos bichos ou se foi um erro de percurso

- aquele violão elétrico fechado, sem caixa, da espessura de um pulso; me dá calafrios (Fagner, Caetano, todo mundo já usou essa porra, mas o Djavan era como se fosse, pra mim, a personificação daquele instrumento horroroso, um violão elétrico fechado que canta, compõe e dá entrevistas)

- uma coisa leva a outra: além de em todo bar-happy-hou ‘Sina’ e ‘Te Devoro’ serem as apostas da noite, os crooners meia-bomba também passaram a usar o tal violão elétrico fechado (não sei se existe uma relação tão íntima entre uma coisa e outra, mas que é foda é foda)

O lance é que: nas minhas pesquisas sobre Walter Franco, eu descobri que o Djavan conseguiu o primeiro disco depois de brilhar numa ocasião em que W.F. também brilhara. Em 1975, o Festival Abertura, da Globo, premiou 1) Carlinhos Vergueiro (‘Como um Ladrão’), 2) Djavan (‘Fato Consumado’, eu quero é viver em paz, por favor, me beija a boca, que louca) e 3) Walter Franco (‘Muito Tudo’, que ele nem chegou a apresentar direito porque não deixaram, e aí o Julio Medaglia e o Walter passaram o tempo da apresentação sentados no palco, fingindo que jogavam dados).

Eis que, entre um prazo atrasado e outro ainda mais, com essa abdução por ‘Fato Consumado’ (claro que eu já tinha a escutado, mas nunca com carinho e atenção), Djavan passou a habitar o meu círculo das curiosidades.

O Miguel Fallabela, aqui embaixo, em um Videoshow de 1995, dá um pouco o clima daquele 1975 (atentar para: Miéle, que anos depois iria lançar o ‘Melô do Tagarela’, era um dos apresentadores; Hermeto; Alceu; Luiz Melodia).

 

‘Fato Consumado’, em resumo, foi o que me fez ir atrás do primeiro álbum do Djavan, lançado em 1976. A voz, o violão, a música de Djavan não é o nome mais criativo do planeta, mas isso meio que tanto faz. A primeira faixa é ‘Flor de Lis’ (que foi regravada por um trilhão de pessoas, inclusive pelo Tim Maia); todo mundo já ouviu aquele caô de que a letra era uma homenagem à mulher dele, que morreu no parto junto com o bebê, mas todo esse falatório – da época em que correntes assim ainda circulavam em emails BOL ou iG – não faz qualquer sentido e ele desmente o boato sempre que pode. Adiante: o disco é bom, e eu por muito tempo o escutei repetidamente, encontrando, a cada audição, mais motivos para achar aquilo um puta trabalho.

No caso, o que me levou a escrever este texto, e que talvez não esteja sendo lido por ninguém, foi o dia em que resolvi – na minha cega ignorância – comprar um LP do disco de 1982, Luz. Honestamente, eu não sabia com o que estava lidando, mas por essas maravilhas que o disco de vinil proporciona, vi no encarte que aquela gaita de ‘Samurai’ era obra de Stevie Wonder (sim, na foto lá em cima do post, de óculos escuros e jaqueta da Fila).

Aí, claro, continuei a passada de olho e encontrei fotos de Djavan com Moacir Santos, descobrindo que os arranjos de ‘Capim’ são do maestro, o que faz todo sentido quando você escuta a faixa.

Como Djavan chegou em Los Angeles e acabou num estúdio com umas lendas do soul e com o Moaça é coisa que vim a saber depois: em 1982, a Carmen McRae (também) gravou ‘Flor de Lis’ (que é uma versão maravilhosa, puta merda), e aí o alagoano acabou nos States, ficou famoso e todo mundo quis dividir o balanço.

O Ronnie Foster, produtor do disco, disse na época do lançamento: “Este trabalho não pode expressar o amor e felicidade que Djavan e eu sentimos. A experiência com ele não só me comoveu, como seu calor e amor emocionaram todas as pessoas envolvidas nesse trabalho. Eu espero que o Brasil e o mundo se deem conta do que eles têm em Djavan.

Eu me dei conta disso em algum momento, que nem sei precisar exatamente quando; talvez eu tenha ficado mais velho, e aí o Greatest Hits do Elton John e os romances clássicos do Djavan se tornaram mais parte da minha realidade.

Pouco tempo atrás, seguindo adiante nessa incursão Djavanesca, escutei o Lilás, de 1984, e tem muito anos 80 mesmo, slap bass, bateria eletrônica e outras coisas abomináveis da década, mas eu acho que gostei.

Djavan é bom de balanço, e talvez seja só disso que se trata. Ou sei lá.

ps.: o site oficial do Djavan, assim como o do Fagner, coincidência, é desses organizados e cheios de detalhes para o caso de seu filho precisar fazer um trabalho sobre um deles na escola.

Mexendo em velhos emails, arquivos antigos e afins, me dei conta de que faz quase dois anos que durante uma ligação internacional, lá pelas 9h da manhã, tempos de freela, eu ouvi, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Buddy Guy me perguntar: “How are you doing this morning, my boy?”

buddyguy_c2_2012* pra quem quiser ler a entrevista na íntegra, publicada no saudoso – e extinto – C2+música, do Estadão, em março de 2012, é só clicar na foto aí em cima.

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